Ficção Cientifica para quem ainda não descobriu que ama Ficção Cientifica

Da série que acabei de inventar: livros bons demais para não serem enaltecidos em todas as redes possíveis ✨

Dê esse livro de presente, façam um filme com ele é tudo que peço.
Ele já começa com uma frase forte: “Comecei a escrever sobre poder porque era algo que eu tinha muito pouco.”

É uma história para te dar perspectiva do que é o racismo e de como a gente pode se acostumar com ele, mesmo hoje. Mesmo sendo esclarecido, mesmo sabendo a história, e por vezes, acreditando que acabou, afinal “Você não precisa bater nas pessoas para tratá-las com brutalidade.”

Dana vive no ano de 1997 com o noivo, ela é negra e ele branco, e, eles acabam de se mudar para sua nova casa. Enquanto arrumavam sua mudança, começam acontecer eventos entre passado e futuro (que não detalharei para não dar spoiler). Dana é confrontada com um passado que grita com as lutas do presente. É uma leitura tão atual mesmo sendo um livro relativamente antigo, nos coloca em contraste com a humanidade e com as lutas que diariamente temos que travar contra o antirracismo, fascismo e ostracismo.

Li uma resenha onde a pessoa disse “a Dana não sentia raiva do Rufus, ficava confusa” e deu 2 estrelas para o livro, e é por isso que quero escrever aqui. Dana foi manipulada por Rufus desde que ele era criança e pessoas manipuladas e agredidas acreditam eventualmente que estão confusas e loucas. As pessoas acreditam mesmo que elas estão imaginando coisas e que “não é bem assim”. Até porque, Rufus e ela tinham algo a preservar (que é spoiler) e pela sua existência e por temê-la, que Dana suportou muitas coisas. E você relacionar isso levianamente, é escravizar Dana novamente, afinal, está culpabilizando-a. Sempre que você coloca a vítima de violência em um lugar de ‘ela poderia ter feito alguma coisa’, você culpa ela pelo crime. 🤕

No mais, a autora tem a escrita mais deliciosa da vida e te faz refletir não apenas sobre racismo, mas também sobre gênero, poder e o que realmente significa sermos HUMANOS. ✊🏽✊🏾✊🏿

“Todas as lutas são, essencialmente, lutas por poder.”

Obrigada, Octavia ❤

Como Viúva de Ferro virou um dos meus livros favoritos da vida?

A própria história da autore revela muito sobre o que essa história representa, e quando nos agradecimentos, elu diz: “…que me apoiou durante todo o tempo em que eu me transformava de uma estatística a uma sobrevivente forte o bastante para escrever esta história.” Forte, né?

O que eu gostei:

Cenas de luta, representatividade (tanto autoral, quanto dos personagens), construção da história embasada na cultura, história e mitologia chinesa, ambientação distópica em lugares reais/atuais e uso dos elementos da natureza e do taoismo para desenvolvimento não apenas das lutas, mas também para a evolução da percepção da personagem principal. 

Todos os elementos que compõe o livro são muito bem amarrados dentro do contexto da história, e tem alguns “easter eggs” históricos muito legais no desenrolar, como: o nome da personagem principal, Wu Zetian, é o nome da Imperatriz Wu, que foi a única mulher na história da China que ocupou o trono imperial. Ao fazer essa leitura, pesquise muito sobre todas as criaturas e lugares, como os hunduns (criaturas mitologicas) ou dinastia Tang (pertencente à dinastia que havia reunificado a China entre 581 e 618). Até mesmo o nome que se dá ao país no livro, Huaxia era um termo usado na literatura chinesa histórica e muitas vezes usado para representar a China e a sua civilização.

Tudo sobre esse livro é incrível, mostra um conhecimento, aprofundamento e amarração de desenvolvimento e contexto maravilhoso por parte de @xiranjayzhao. Inclusive, elu já confirmou que terá continuação e escreveu no Goodreads: “Be careful what you wish for because you just might get it in the worst way possible“, especula-se que o nome (em inglês) será Heavenly Tyrant. 

O que não gostei:

Não acredito que seja algo que onere na história ou atrapalhe o desenvolvimento, que inclusive até pode ser um ponto sobre tradução ou ser explicado na continuação. Porém, alguns momentos pareceram que foram desconectados da história e não situaram direito o porquê dos personagens estarem indo para determinado lugar, a cena já corta eles no lugar. Mas pensando em tudo que citei acima, não tem como tirar absolutamente NADA dessa história, queria poder dar mais estrelas.

IMPORTANTE: Se a sua expectativa é ler romance, você não encontrará isso aqui. O relacionamento dos personagens é tratado de forma superficial e somente para entonar o emponderamento da personagem. Não se deixe enganar por fanarts ou resenhas que vendem um triângulo amoroso ou trisal. O foco da história é na luta pela libertação como ser humano e para sermos e nos relacionarmos como quisermos, visto que o patriarcado nos colocou em estruturas e de relações que favorecem os homens no domínio da família, como o pai/marido mantendo a autoridade sobre as mulheres e as crianças.

“Não é meu dono. Ninguém é. Podem achar que são, mas não importa o quanto me xinguem, me ameacem ou me espanquem, jamais vão conseguir controlar o que se passa na minha cabeça, e acho que isso lhes causa uma frustração sem fim.”

Se ler, me chama pra surtar ❤